terça-feira, 21 de abril de 2009

Sarnento, pulguento, magrinho, uma graça!

Olha que gracinha de texto! Eu e os livros infantis novamente... Garimpei uns cinco pra ler durante o feriadão. Esse é bem legal (Contos de estimação)! destaque para o conto da Adriana Falcão! Uma belezinha de texto. Vale a pena ler todinho... Quem tiver entendimento que entenda... rs
"Tem pessoa que gosta de cachorro, tem pessoa que não gosta, tem cachorro que gosta de pessoa, tem cachorro que detesta. Jonas era um cachorro que adorava gente. Gente fala. Gente canta. Gente come de garfo e faca. Gente anda em pé, dirige carro, caminhão, ônibus, navio, avião. Gente paga passagem. Gente é muito importante. (Tem gente até que é presidente). Gente estuda, trabalha, faz redação, equação, reunião, gente toma decisão, pinta quadro, escreve poema, compõe canção. Gente ama. Briga. Vai embora. Volta. Se arrepende. Gente sente. Gente pensa cada coisa, ele pensava. Quem disse que cachorro não pensa? Todo mundo? Então duvide. Gente muitas vezes se engana. Mas Jonas não via os defeitos, via só as qualidades. “Tão bonito gente”, era sua opinião de cachorro, “gente é realmente o máximo”. Homem, mulher, velho, menino, menina, adolescente, tanto fazia. Tudo o que Jonas queria, desde pequenininho, era uma pessoa só pra ele. Não importava a raça. O sexo. A idade. A aparência. A cor do cabelo. A classe. O endereço. Qualquer pessoa servia. Mas quem ia querer um vira-lata? Se ele ainda fosse um cachorro peludo, fofo e engraçadinho como esses que as pessoas compram com não sei quantas notas de dinheiro, e dão vacina, ração, prato com o nome escrito, coleira, medalha, lacinho, carinho. Mas não. Jonas era até bem feinho, pra dizer sinceramente. Sarnento. Faminto. Pulguento. Cinzento. Magrinho. Sem graça Nasceu na rua. Mamou na marra (Jonas tinha mais doze irmãozinhos e a sua mãe não tinha tantos peitos, coitada). Cresceu pouquinho. Muito precocemente aprendeu a abanar o rabo. Era só aparecer alguém e o seu rabo começava: pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Mas ninguém nunca parava pra dizer “que bonitinho!”, “olha, mãe, um cachorrinho!”, “tão pequeno!”, “tão simpático!”, ou essas coisas que as pessoas dizem quando o coração delas amolece por algum motivo. Mesmo que seja passageiro. Mesmo que seja piedade. Mesmo que seja bem pouco. Mesmo que seja um cachorro sarnento, faminto, pulguento, cinzento, magrinho, sem graça. Mesmo sem nenhum motivo, apenas porque a pessoa acordou bem-humorada. Não tinha jeito, choro, latido, lambida, pulinho, ganido, não tinha rabo abanando que comovesse qualquer um que fosse. Ninguém passava a mão na sua cabeça. Nem uma festinha de nada. Ninguém estalava os dedos pra Jonas. Sabe lá o que é viver sem saber o que é um colo? A vida assim é muito dura, ele constatava diariamente, quando acordava na calçada. Então sua mãe lambia ele todinho, como quem diz “besteira menino” (ela sempre foi uma cachorra de muita coragem. Criou muitos cachorrinhos, teve não sei quantas ninhadas, viu seus filhos crescerem cada um lá do seu jeito com as suas preferências, leite, osso, sobra de macarrão, arroz misturado com graxa, sapato velho, garrafa de plástico vazia, papel amassado pra se fazer de bola, cachorrinhas no cio, cachorrinhos charmosos). Mas, gente, Jonas? Por que será que esse cachorro não resolveu gostar de alguma coisa mais fácil? Sei lá porque, ora. Nem tudo no mundo é explicável. O fato é que, apesar de tão desprezado (às vezes ele chegava a pensar que era invisível), Jonas adorava gente e pronto. E um cachorro que queria tanto ter uma pessoa havia de encontrar uma pessoa que também quisesse ter um cachorro, não é verdade? -- É louco – pensavam os outros cachorros. – Quem vai querer ser dono dele? Mas ele não queria um dono. Não era isso. O que ele queria era ser dono de alguém. Será que não dava pra entender algo tão óbvio? Jonas era um cachorro que tinha muito pra dar e precisava urgentemente despejar em quem quisesse receber.
Por isso saiu pela rua procurando. Ouviu não sei quantos “xô!”, “cuidado, um cachorro!”, “tão sujo”, “que asco!”, “dá o fora daqui, seu saco de pulgas”. Pensa que ele desistia? Que nada. Botou na cabeça que ia encontrar sua pessoa e não era cachorro do tipo que se deixa abater pelas dificuldades que aparecem sempre. Latas de lixo muito altas ou vazia. Gente que atira pedra. Sede. Frio. Tempestade. Pra conservar a esperança intacta, apesar de tantos obstáculos, só quando a determinação é muito grande. E a dele era. Será que foi sua insistência? Foi aquela perseverança toda? Será que foi coincidência? Quem sabe? Mas quando Luísa viu Jonas passando bem na frente da sua escola, se identificou na hora. Ela também era sozinha, magrinha, sem graça (pelo menos era isso que ela achava). Pois ele achou justamente o contrário. Nunca tinha visto menina mais charmosa, mais bela, mais dele, “é ela!”, ele pensou, e então ela disse: “é ele!”. Espera. Calma. Não é possível. Será que era com ele mesmo? Era. Há tempos Luísa procurava um cachorro só pra ela em todos os pet-shops da cidade: Yorkshires, Poodles, Lulus da Pomerânia, Fox Terriers, mas nenhum tinha aquela cara que dizia “eu quero” e nem um rabo que abanava assim, com tanta vontade. -- É louca – comentavam. – Como é que essa menina foi querer logo o mais feio?
Nem todo mundo sabe que o verbo querer fica muito melhor de dupla. Um querendo de lá e outro querendo de cá viram dois que se completam. E quando isso acontece – dois quereres ao mesmo tempo – os sinos sempre badalam, os olhos piscam feito estrelas, os corações batem mais forte, razoes perdem completamente o sentido, tudo vira maravilha em volta, a vida quase fica tonta e o resto não importa. Pena que gente é bicho tão complicado. Procura explicação pra tudo, justificativa, motivo nobre, benefício, julgamento. Perde muito tempo analisando. Dá importância além da conta a coisa menos importante do que o momento. Gente pensa demais de vez em quando. Tanto é que tem gente que até hoje não entende quando vê Luísa e Jonas passeando, juntinhos e felizes, e logo pensa: “que engraçado”." Obra: Contos de Estimação (págs. 38-43); Editora: Objetiva; Edição: 1ª; Ano: 2002. Local: Rio de Janeiro – RJ – Brasil.

1 comentários:

Kézia disse...

*_*

Tão lindo!

B-joss

Sejam bem-vindos!

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