quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Do capítulo: "Vencendo a religião"

Não é evidente que precisamos vencer a religião. Ninguém duvida de que precisamos vencer a injustiça ou o tédio. Mas será mesmo que a religião apresenta algum tipo de perigo? As pessoas religiosas não costumam ser mais educadas e prestativas do que as outras? O senso comum não nos diz que ir à igreja faz bem para a alma e purifica o espírito? Então, por que a religião deve ser tratada como algo traiçoeiro e venenoso?
A natureza pode ser venenosa e traiçoeira. Duas aranhas são bons exemplos disso. A aranha chamada Portia fimbriata se aproxima da teia de outra aranha e imita os movimentos de um inseto preso. A outra aranha, sem saber que aquele movimento é de uma aranha predadora, corre para o local onde a "vítima" está. A Portia captura a outra aranha fingindo ser outra coisa. Seus movimentos mimetizam o de um inseto preso, de uma refeição certa, mas na verdade representa a morte inevitável. A Portia é traiçoeira.
A aranha-marrom representa outro tipo de perigo. É uma aranha pequena, não é agressiva e costuma se acomodar nas casas. Lá se arruma dentro de roupas, calçados ou outros lugares. Os acidentes acontecem quando, por exemplo, alguém coloca uma roupa onde a aranha-marrom se acomodou. Pressionada, ela pica. Ao contrário de outras aranhas, a picada da aranha-marrom não é dolorida. Nas primeiras horas surge uma pequena bolha no local da picada e o aspecto da região em torno parece ser uma reação alérgica. Por parecer uma ferida inofensiva, a pessoa picada não toma providências. Só depois de dois dias é que os sintomas ficam graves e a pessoa procura ajuda médica, mas as sequelas são inevitáveis, especielmente nos rins. Em casos extremos, o veneno da aranha-marrom mata. É um veneno lento, indolor, mas mortífero.
A religião é uma aranha. O canto da sereia religiosa não segue os mesmos compassos de alma sincera em busca de alívio. Religião e anseio por Deus são linhas paralelas. A alma sincera quer encontrar o caminho que leva a Deus, olhando com atenção e reverência, mas a religião quer regulamentar, estabelecer rotas fixas e punir quem não segue seus ditames.
A religião é traiçoeira porque se faz passar pelo caminho verdadeiro para Deus, mas acaba engolindo quem se aproxima dela. A religião é venenosa porque a peçonha indolor só dá sinais de seus efeitos danosos com o tempo. E quando isso acontece, o estrago já está feito.
A religião é traiçoeira e venenosa. Em vez de ser uma caminho de virtude, na verdade é um caminho de tolice. É por isso que recisamos vencê-la.
Deixe-me explicar melhor o que entendo por religião. Dentre várias definições possíveis, sugiro que religião se constitui de cinco ingredientes fundamentais: experiência fundante, mito, símbolo, rito, dogma e tabu. Funciona mais ou menos assim: alguém tem uma experiência com o que entende ser o divino, e então nasce o mito, a história da experiência, narrada em linguegem simbólica, pois o que é experimentado não pode ser definido em outros termos, que passa a ser celebrado em ritos, nos quais participam os que se submetem às regras próprias, isto é, tabus - o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode - do elemento venerado. A religião é sempre uma sistematização e tentativa de controle e perpetuação de uma experiência espiritual. Mas toda experiência espiritual será sempre maior do que a religião que pretenda representá-la, pois se o que de fato foi esperimentado foi o divino - e toda religião assim acredita - o divino não pode ser contido por nada, pois a tudo contém.
Ed René Kivitz, em O livro mais mal-humorado da Bíblia, p. 83-85
* Meu queixo ainda tá no chão!

2 comentários:

Sr. Sete disse...

Levante esse queixo, se é q ele ainda está no chão e se resolva sem precisar dele, isto é, do livro.

Muita coisa para escrever sobre e pouca coisa sobre para escrever...

Só consigo refletir que não é a aranha que é culpada pelos atos.

É interessante que características como "ser traiçoeiras" não podem ser atribuídas às aranhas por naquele caso caracterizarem-se apenas como instinto e como tal NORMAL, SEM PROBLEMAS, ACEITÁVEL, "VIVIVEL" e até NECESSÁRIO PARA UM EQUILÍBRIO (já diz a biologia).
Além disso, não me sai da cabeça que se encontramos qualquer animal em nossa casa, inclusive UMA ARANHA e porque de certa forma invadimos seu habitat. O que fazer?

É tudo escolha ou acaso... Não é culpa da instituição que por acaso SOMOS NÓS.

Chorar e assumir não conseguir o que se pretendia dá pra aceitar. Negar, fugir e se rebelar por fraqueza, eu já disse, é fraqueza e fraqueza eu vomito.

Acho que não me fiz entender. Talvez vire post. Mas talvez não.

osvjor disse...

Esse autor é MEIO barroco. Nunca vi alguém, pra fazer uma analogia, gastar TANTAS linhas com as características do objeto da analogia. É como o cidadão que conta uma piada e perde MAIS TEMPO explicando a piada do que contando a piada. Ou seja, se você precisa explicar TANTO a piada e a analogia, é um forte indício de que não é um grande contador piadas, nem um grande criador de analogias. Fora isso, a idéia de que a busca por Deus, o entendimento de Deus ou o que seja esteja necessariamente desatrelada de uma religião, culto, seita, seja qual for o nome, me parece bem absurda. Lembra artista em "Caras": aquele que diz que não tem religião, mas que acredita em Deus. Como se não tivesse sido uma religião (seita, culto etc) a formadora da idéia que esse artista moderninho tem de Deus.

Sejam bem-vindos!

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