sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O mestre e a flor

Existem pessoas que têm o poder de resgatar a nossa alma e trazer de volta a nossa sensação de estar vivo e inserido neste Universo (que pode não ser o ideal mas ainda não me apresentaram lugar melhor para viver - ainda)... Essas pessoas neutralizam o amortecimento, a cãimbra (nem sei se é assim que se escreve) que o estresse e as dores do dia-a-dia vão causando na gente. Conheço algumas (poucas) dotadas com tal habilidade. Hoje gostaria de escrever sobre duas dessas preciosidades. Um adulto e uma criança. Um homem e uma menina. O mestre e a flor.
Pela manhã estive fazendo das tripas coração para conseguir dar conta de um dos trabalhos mais maçantes da minha profissão. Eram 16 "tormentos" e eu apenas dei cabo em 14! Uma manhã inteira organizando, escrevendo, rubricando, atualizando, conferindo... essas coisas nas quais eu não tenho nenhuma motivação, habilidade e menos ainda: satisfação em fazer. Mesmo entre suor e alguma irritação, fui eliminando as cadernetas uma a uma e apesar da dificuldade em manter o foco, estive bastante concentrada no trabalho que estava fazendo: burocrático e desumanizador-desumanizante (ou a que melhor couber).
Duas interrupções, entretanto, me trouxeram de volta ao mundo dos sensíveis. Primeiro o mestre. O mestre é uma pessoa dessas simples por quem eu tenho uma admiração imensa. Simples e sábio. Fala baixinho maior parte do tempo. Os olhos azuis observam tudo calmanente por trás dos óculos e o melhor de tudo: ele sempre conta histórias ou piadas. Hoje ele contou duas histórias e uma piada - ou será que foi uma piada e duas histórias? Não lembro, mas isso também não tem tanta importância. Ele entrou na sala, me cumprimentou muito respeitosamente como sempre, examinou alguns livros na estante e foi falando das coisas... contando os seus "causos". Pena que foi muito rápido. A alegria durou alguns poucos minutinhos; em seguida ele teve que ir pra sala de aula e eu apenas suspirei resignada e mergulhei novamente no mar da burocracia.
Da outra vez foi a Flor. Eu já me havia transportado para uma outra sala carregando as pastas e os papéis. Ela chegou e ficou parada na porta me olhando um tempinho que eu não tenho como dizer quanto tempo foi. Sei que quando me dei conta tinham dois olhinhos e um sorriso apontados na minha direção e foram como que as primeiras gotinhas de chuva após um extenso período de seca. Há pessoas por quem a gente simplesmente se apaixona... Ela é assim. Tão pequenininha e tão frágil... A voz fininha nem dá pra ouvir direito tão baixinho que fala mas aquela criaturinha tem o poder de alegrar o meu dia de maneira impressionante! Ela lê livros (e de vez em quando me empresta alguns também). E também conta histórias... Hoje ela me contou que gosta de lavar a garagem da casa de sua avó. Que liga a mangueira, molha bem o chão, faz bastante espuma e fica brincando de patinação. Poxa, bateu uma saudade da minha avó (que já faleceu), dos tempos em que eu também fazia essas brincadeiras na varanda da casa dela... A minha Flor. Ela sempre preenche os meus dias com ternura. Pena que foi pouco também. Logo em seguida me abraçou e teve que ir.
...
Depois da manhã inteira de trabalho restou cansaço e uma sensação ruim. Só. A vida segue curso... Saudades da Flor. Vontade de conversar mais tempo com o mestre; quem sabe um dia chego num estágio próximo de leveza, de maturidade, de sabedoria...

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