domingo, 29 de novembro de 2009

Action!

"No princípio era o Verbo" vejo escrito,
E aqui já tropeço! Quem me ajuda?
Tão alto sublimar não posso o verbo,
Devo doutra maneira traduzi-lo,
Se me inspira o espírito. Está escrito
"Que no princípio era o Pensamento". -
Medita bem sobre a primeira linha,
Apressada não seja a pena tua!
Anima, cria tudo o pensamento?
Devera estar - "Era ao princípio a Força!"
No momento, porém em que isto escrevo
Diz-me, uma voz que não pare. Inspira-me
Afinal, o espírito! Alvitre,
Solução enfim acho: satisfeito,
"No princípio era a Ação" - escrever devo.
Goethe, em Fausto
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Outra visita às livrarias. Desta vez motivada(?) por uns volumes com adaptações de grandes clássicos para crianças que peguei para dar uma olhada. Me interessei pela história do velho cientista que vende a alma ao diabo. Fiquei com aquela "coceira", aquela idéia fixa na cabeça, aquela sensação de que não poderia ser feliz nesta vida enquanto não lesse a versão completa do livro. Saí correndo (literalmente) do trabalho, plena sexta-feira à noite para comprá-lo: Fausto. Eis-me aqui com o livro nas mãos. Tenho hora que parar, respirar e depois retomar a leitura. Como diz Rubem Alves, é uma "grosseria" tomar um cálice de licor finíssimo de uma talagada só.
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Vou aproveitar então pra contar algumas insanidades. Tem coisas que só acontecem comigo mesmo. Não adianta nem esquentar a cabeça! Saindo da livraria, em posse do livro, resolvi caminhar até uma parada mais distante pra poder pegar o ônibus de volta pra casa. Ainda não tinha escurecido (o horário de verão proporciona isso) apesar de já ser noite no relógio - o fim-de-tarde estava realmente lindo e eu queria mesmo aproveitar. Passei umas três paradas, continuei andando (tem horas em que eu faço isso, de sair andando por aí - enquanto caminho coloco as idéias no lugar), pensando na vida, nas coisas (muitas) que não aconteceram do jeito que eu desejava ou esperava. Confesso que sentia um pouquinho de raiva da vida naquela hora (pssiiiiiu!, não conte isso a ninguem - foi só um momento de fraqueza). Sentia raiva de ser tão pequena e impotente diante de situações que estão muito além das minhas forças, das minhas escolhas, das minhas vontades...
Eu pensava na conversa que tive com uma amiga durante a semana (as minhas amigas sempre me pregam peças, me pegam desprevenidas e me desconcertam toda...). Lmbrei que eu estava ali quietinha, cortando uns papéis quando ela veio e desferiu um golpe certeiro na minha frieza e indiferença: "Sabe de uma coisa, eu tenho aprendido muito com você" - travei! Ela continuou: "Sabe aquele dia, (...) assim e assim-assado (...), você fez isso e aquilo-outro (...)" - "pois é... eu aprendi (...) com você". A essa altura, já chorando, eu nem ousava olhar pra ela, que continuou: "eu só queria dizer que te amo". Agradeci muito sem jeito. Mais recebi um abraço do que abracei. Chorei um monte e ainda chorei mais quando ela terminou de me nocautear: "Sabe, você marca a vida das pessoas!" ... É. Eu sei. E esse é um fardo muito pesado pros meus (quase) 60 Kg! Tem certas habilidades que a gente tem que se tornam verdadeiras maldições na nossa vida! Foi a resposta que dei a ela.
Voltando à minha caminhada inusitada, nem deu tempo de lamentar... fui interrompida em choro, baba e meleca por uma velhinha de 76 anos, mais perdida do que eu (no caso dela, geograficamente perdida). Ela estava tentando achar o caminho de casa caminhando em direção oposta. Pra você ter uma idéia, as superquadras do Plano Piloto (aqui em Brasília) seguem uma sequência numérica como no plano cartesiano. Temos o ponto zero e as quadras vão de 1 a 16. Nos encontramos na 202 Sul - eu estava indo em direção à 203 e ela caminhava na direção oposta quando me abordou: "Moça, a 208 Sul está perto?" "Olha - eu respondi enxugando o rosto e o nariz - não tá não. Tá meio longinho..." "Mas se eu for por aqui consigo chegar lá?" "É... (ainda fiz piada) se a senhora for por aqui, vai chegar primeiro no Banco Central, depois vai passar pela Rodoviária (...), vai ter que dar a volta lá 'por baixo', passando pelo Japão e... vai chegar na 208 sim - mas vai demorar um pouquinho... rs" "Ah... É que eu moro na 208 Sul, saí pra comprar umas coisinhas e me perdi do caminho de casa. E você? Mora aqui perto? Tá indo pra onde?" "Não, eu não moro aqui perto; e tô indo pro ponto de ônibus, na direção em que a senhora precisa ir - que por sinal é por aqui..." "Ah sim, então vamos juntas; eu te faço companhia".
Tudo o que eu não queria nessa hora era companhia. Mas o acaso mais uma vez me fez guardar na gaveta os meus queixumes pra atender à necessidade de alguém mais em apuros do que eu. Foi uma caminhada em tanto! Confesso que me diverti muito com Dona Ivete (esse era o nome dela), que me contou praticamente toda uma vida durante o trajeto de seis quadras que fizemos juntas. Por um momento esqueci as dores, esqueci as lágrimas, esqueci do Fausto e disponibilizei as orelhas e o resto a uma desconhecida que precisava encontrar o caminho de casa. E assim, eu que só queria escapar dos ônibus lotados da hora do rush, trabalhei de delivery de vovó, plena sexta-feira à noite.

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