quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Encontro e despedida

Novamente nos encontramos. 'Inda na mente o choque provocado pela última imagem: o choro incontido, o silêncio e a saída desconcertante sem dizer pra onde ia nem se voltava. Não voltou. Não como pensei. Passou por mim e foi como se não me visse. Com uma mão segurei-a pelo braço, com a outra segurei o queixo, firme, olhei fundo nos olhos. Realmente está bem diferente de quando a vi pela última vez. Muito diferente. Bem, ao que me parece - externamente - mas uma olhada cuidadosa nos olhos não deixa dúvidas: está faltando alguma coisa. Vi isso. Senti em mim a dor que era dela. Tentei falar, perguntar, iniciar algum diálogo mas não! Desvencilhando-se dos meus braços, pôs o indicador cerrando os lábios com um longo: "-Shhh..." Ela não quis falar. Sentou-se num paralelepípedo e eu sentei ao lado. Estalava os dedos e sorria pra mim um sorriso nem um pouco convincente (é preciso muitas vezes iludir todos à volta de que se está bem) mas qual nada! Eu sei pouco desta vida mas entendo o gesto. Os lábios dela sorriam, os dentes se mostravam largamente mas todo o corpo restante gritava silenciosamente a dor que a corroía toda por dentro. Confesso que quis chorar, mas isso também seria demonstrar fraqueza, e sabe... precisamos ser fortes! Repentinamente tomou-me uma das mãos. Segurou firme e levou-a ao peito, bem à altura do coração, por baixo da blusa. O que senti na pele foi a textura de uma imensa cicatriz! Puxei, desconcertada, a mão de volta. Causou-me vertigem a sensação. Um desconforto incomum. O que ali eu apalpava, fisicamente caía como espelho à minha própria alma. Por que isso agora? Quis sair, correr, fugir - desta vez ela foi quem me segurou pelo braço... e abriu a blusa. O que eu vi tirou o chão debaixo dos meus pés! Não era resultado de corte feito por bisturi nem havia sinal de sutura. O que me saltava aos olhos era uma mutilação resultante de violência, de força bruta, deseperada...Vista de fora, a cena era surreal. O meu desconforto era evidente mas ao mesmo tempo que havia uma urgência de me desvencilhar sua mão e fugir dali para bem longe, onde aquela imagem não pudesse alcançar nem no mais profundo do inconsciente, um impulso de igual intensidade me impelia a tomá-la nos braços como criança, dizer que "tudo vai ficar bem" apertá-la contra o peito mesmo sabendo que o mal, uma vez feito, é irreparável. Não havia o que fazer. Com pouco compreendi o vazio em seus olhos, a tristeza exalada em seus gestos, a beleza pétrea esculpida em seu exterior, capaz de convencer com certa facilidade os menos sensiveis, o sorriso forçado também pronto a cair na graça dos mais desatentos... Entendi o que ela me disse sem palavra: a cicatriz que ali estava era o resultado da maior loucura que já fizera, o maior ato de bravura e de coragem jamais pensado em toda a história da humanidade, a atitude desesperada de quem não mais suporta a dor das ausências - arrancara o próprio coração! Assim, com as próprias mãos. Rendera-se, finalmente, à maioria dormente das pessoas que vêm e vão todos os dias pelas ruas, pelas estradas, pelos coletivos. Meu desespero foi maior! Aí sim, as lágrimas vieram com força e não tive como segurá-las. Não há barragem que consiga deter a intensidade da alma que se derrama. Ela já não podia mais chorar. Chorei por nós. Ela soltou a minha mão e se recompôs. Enxugou-me as faces inutilmente sem nada dizer. Olhou-me mais uma vez com aquele olhar vítreo e se foi. Sequer reagi. Fiquei ali por um tempo lembrando de como ela era e como nunca mais voltará a ser, com a tristeza consumindo aquilo de alma que ainda me resta.

0 comentários:

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
Copyright 2009 Viviane Zion. Powered by Blogger
Blogger Templates created by Deluxe Templates
Wordpress by Wpthemescreator
Download Royalty free images without registering at Pixmac.com