domingo, 31 de janeiro de 2010

Não há mistério no mundo

O guardador de rebanhos - VIII Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) [213] Num Meio Dia de Fim de Primavera Tive um sonho como uma fotografia Vi Jesus Cristo descer à terra, Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e um rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu, Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras, No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se Tornar homem outra vez E para subir uma cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas-Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque não era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do céu. E ele que queriam, da mãe que só nascera, E nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse uma bondade e uma justiça! Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três, Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro Criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o modo lE desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz no braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras nos burros, Rouba as frutas dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias. A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as cousas, Aponta-me todas as cousas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus, Diz ele que é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a meia fazer, E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que Criou - "Se é que como Criou, do que duvido" - "Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a glória sua, Mas os seres não cantam nada, se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres ". E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços E eu levo-o ao colo para casa .................................................. ......................... Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava . Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda parte um Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direção do meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos a dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e uma esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Convém Graves como um deus e um um um poeta, E como se cada pedr aFosse Todo o Universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixa-la cair no chão. Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homen Se Ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, Comércios dos E, e dos navios Que ficam fumo sem ar dos altos-mares. Porque ele sabe que tudo isso falta verdade Àquela Que uma flor tem ao Florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales, E a fazer doer aos olhos muros caiados OS. Depois ele adormece e eu deito-o Levo-o ao colo para dentro de Casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos, Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono .................................................. ................................ Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu no colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para Tornar eu a adormecer. E dá-me teus sonhos para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é .................................................. ................................... Esta é a história do meu Menino Jesus, Por que razão que se perceba Não há de ser ela mais verdadeir aque tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam?

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