terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"Sonho com jardins na areia do deserto"

IX
Creio que ele se aproveitou de uma migração de pássaros selvagens para fugir. Na manhã da viagem, pôs os planos em ordem. Revolveu cuidadosamente seus vulcões. Ele possuía dois vulcões em atividade. E era muito cômodo para esquentar o café da manhã. Possuía também um vulcão extinto. Mas como dizia ele: "Nunca se sabe!" Revolveu também o extinto. Se são bem revolvidos, os vulcões queimam lentamente, sem erupções. As erupções vulcânicas são como fagulhas de lareira. Aqui na Terra, nós somos muito pequenos para revolver os vulcões. Por isso, que eles causam tanto dano.
O pequeno príncipe arrancou também, não sem um pouco de tristeza, os últimos rebentos de baobás. Ele pensava em nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos rotineiros lhe pareceram, aquela manhã, extremamente agradáveis. E quando regou pela última vez a flor, e se preparava para colocá-la sob a redoma, percebeu que tinha vontade de chorar.
- Adeus - disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
- Adeus - repetiu ele.
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
- Eu fui uma tola - disse finalmente - Peço-te perdão. Procura ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado completamente sem jeito, com a redoma nas mãos. Não podia compreender essa delicadeza.
- É claro que eu te amo - disse-lhe a flor. - Foi minha culpa não perceberes isto. Mas não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Tenta ser feliz... Larga essa redoma, não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou tão resfriada assim... O ar freso da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.
E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos. Em seguida acrescentou:
- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Então, vai!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...

1 comentários:

Angel disse...

Gosto muito das reflexões que faço diante deste livro. Foi um coleguinha de cabeceira, e muitas vezes ai o é. Tenho medo do orgulho, nos faz perder coisas e pessoas importantes. Mas ter um pouco dele se faz necessário, caso contrário nos deixamos entregues a sorte e acabamos por nos desrespeitar. E quanto as despedidas, separações... duvido que Deus tenha feito algo, sentimentalmente, mais dolorido...

Ótima lembrança, Viviane. Fico aqui imaginando que procura retratar algo da sua vida.

Abraços!

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
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