sábado, 27 de fevereiro de 2010

Brincadeiras

Estive lendo um livro técnico semana passada: uma compilação de textos voltados a educadores que trabalham com crianças de seis anos de idade - isso por conta da nova organização do Ensino Fundamental (agora, com duração de nove anos). Me dediquei à leitura mais detalhada na parte de Artes (que me dizem respeito mais diretamente, apesar de ser do meu interesse o assunto todo). Essa parte foi só pra situar a minha viagem... é que durante a semana andei pelos corredores da escola parafraseando um trechinho de um poema de Manuel de Barros: "Eu não obedeço ordem; obedeço à desordem!" que li primeiramente neste livro. Hoje inventei de ler uma revista e o bendito poema saltou aos meus olhos novamente. É... certas coisas que se repetem na nossa vida não se deve deixar passar batido: podem estar sinalizando algo. Por isso vou colocá-lo aqui. É uma belezura! Vale a pena a leitura.
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Brincadeiras
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No quintal, a gente gostava de brincar com palavras
mais do que de bicicleta.
Principalmente porque ninguém possuía bicicleta.
A gente brincava de palavras descomparadas. Tipo assim:
o céu tem três letras,
o sol tem três letras,
o inseto é maior.
O que parecia um despropósito
para nós não era despropósito.
Porque o nosso inseto tem seis letras, e o sol só tem três,
logo o inseto é maior. (Aqui entrava a lógica?)
Meu irmão, que era estudado, falou: "Que lógica que nada, isso é um sofisma". A gente boiou no sofisma
Ele disse que sofisma é risco n'água. Entendemos tudo.
Depois Cipriano falou:
"Mais alto que eu, só Deus e os passarinhos".
A dúvida era saber se Deus também avoava
ou se ele está em toda parte como a mãe ensinava.
Cipriano era um indiozinho guató que aparecia no
quintal, nosso amigo. Ele obedecia à desordem.
Nisso apareceu meu avô.
Ele estava diferente e até jovial.
Contou-nos que tinha trocado o Ocaso dele por duas andorinhas.
A gente ficou admirado daquela troca.
Mas não chegamos a ver as andorinhas.
Outro dia a gente destapamos a cabeça de Cipriano.
Lá dentro só tinha árvore, árvore, árvore.
Nenhuma ideia sequer.
Falaram que ele tinha predominâncias vegetais do que platônicas.
Isso era.

1 comentários:

R. Santiago disse...

É bem a sua cara mesmo. Tenho esse livro. Quer?

Amo-te.

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
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