quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dois caminhos

Apaixonei-me. Lembro que na faculdade cheguei a ler algum trechinho de livro dele sem dar a devida importância (isso foi há anos atrás). Até que uma passada ingênua por uma livraria depois do almoço colocou-me face a face com os dois primeiros livros de Rubem Alves: Sobre Pecados e Demônios (muito bom, leiturinha curta mas muito divertida) e Variações Sobre a vida e a morte - o feitiço erótico-herético da Teologia. Pronto! Desandei (ou andei) de lá pra cá, procurando os livros dele. Gosto muito das crônicas que o Rubem escreve. Terminei agora uma trilogia (se é que posso chamar assim). São três coletâneas de crônicas agrupadas em três livros que receberam como título trechinhos de um poema de William Blake. Me impressiona a proximidade das palavras que ele escreve com as que eu desejo escrever mas ainda não consegui colocar no papel. Às vezes, eu passo a semana toda com um pensamento fixo e me pego com um de seus livros em mãos, lendo exatamente (não é exagero, e é para meu total espanto) aquilo em que pensava, em forma de palavras - já publicadas... É como seu eu mesma tivesse escrito, não dá pra explicar (e eu também sou péssima para dar explicações)! Esses dias mesmo, passei por uma situação extremamente constrangedora, em que me vi dividida em dois caminhos: permanecer e iniciar uma discussão (provavelmente) infindável ou me retirar pra não ter que responder, me explicar. Eu era um estranho num mundo em que todos pensam igual; discordar seria abrir precedente pra queda de braço absolutamente desnecessária, tipo debate sobre quem veio primeiro - o ovo ou a galinha... Então retirei resignadamente meu timinho de campo, me recolhendo às minhas leituras. Eis o que me saltou aos olhos:
. . . Lembro-me de um poema de Robert Frost:
Duas trilhas bifurcavam num bosque de outono,
e eu, viajante solitário, triste por não poder andar por ambos,
longamente observei até onde desapareciam na folhagem. [...]
Duas trilhas num bosque bifurcavam e eu -
eu fui pela menos pisada,
e isso fez toda a diferença.
Acho que fiz o mesmo na vida: preferi sempre a trilha onde poucos andavam. Desde menino eu amei estar sozinho. Gostava de ficar só com os meus pensamentos. [...] O bom da trilha menos pisada é que não há falatório. São poucos os que andam por ela, mas eles são muito interessantes. Diferentes. É a trilha dos poetas, dos profetas, dos bufões, dos hereges. Esses foram sempre meus companheiros na minha caminhada. T.S Eliot tem um aforismo que diz: "Numa terra de fugitivos quem anda na direção contrária parece estar fugindo". [...] Não sei se a minha era uma terra de fugitivos. Sei que desde pequeno eu andava ao contrário. Não por escolha, mas por destino. [...]
.
.
.
Tava tudo explicado. Chorei mas não tinha (ou tinha) motivo pra chorar. Li e reli. Entendi. Ufa! Há mais alguém assim na face da Terra. Muito bom saber que não se está só.

1 comentários:

Angel disse...

Bela citação! Muito bem, por culpa sua agora terei que ler! rs. Terminei um livro essa semana, e estava em desespero procurando por uma nova leitura. Achei.

E saber a hora de tirar o time de campo é para poucos. É sinal de sabedoria!

Abraços, Viviane!

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
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