terça-feira, 23 de março de 2010

O silêncio - parte II

Liturgia do silêncio, por Rubem Alves
Muitos anos atrás, passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grands Champs. Eu e algumas pessoas ali estávamos, para juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio não total, mas de uma fala mínima. Só falar quando a fala fosse melhorar o silêncio. Isso me deu um enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa sem pé nem cabeça com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Fui então informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes ao dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci. Tenho horror a sermões. Mas me conformei.
O lugar era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos, arranjados em "U" definiam um espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre uns tapetes. Cheguei alguns minutaos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio. Nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas pelo ventos impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.
Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuávamos do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino". Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estava lá para se alimentar do silêncio. E eu comecei a me alimentar do silêncio também. Silêncio tem gosto bom. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. E comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência e referiu-se a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. É preciso que todos o ruídos cessem. (...)

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