domingo, 30 de maio de 2010

Machado de Assis IV + eu mesma (continuação)

"Creiam-me, não há problemas insolúveis. Tudo neste mundo nasce com a sua explicação; a questão é catá-la. Nem tudo se explicará desde logo, é verdade; o tempo do trabalho varia, mas haja paciência, firmeza e sagacidade, e chegar-se-á à decifração"

Eu caí na rotina religiosa! Que grande tragédia! Uma coisa é vever na dependência de Deus, ser "levado pelo Espírito", "bastando a cada dia o seu mal"... outra coisa bem diferente é viver gravitando em torno das programações, das reuniões, da burocracia (que infelizmente invadiu a instância congregacional e que chateia por demais). Deixei de viver a plenitude dos relacionamentos pra viver em função das estratégias que fariam a Igreja aumentar quantitativamente (os números, números, números...) - não pense que isso é realidade apenas das corporações, porque não é! E aquilo tudo foi me cansando a alma, me dando nos nervos, e eu simplesmente não tinha mais opção na vida: era cobrança sobre cobrança por um desempenho que eu não conseguiria alcançar jamais pelo simples motivo - de não querer e não crer que a obre de Deus na minha vida era corresponder às expectativas da liderança da congregação. Surtei várias vezes e de várias maneiras. Qualquer questionamento ou discordância era tido como rebeldia ou contestação (e era difcílil pra mim explicar como eu me sentia -  vazia e sem propósito, distante de tudo aquilo que me faz feliz, cumprindo tabela e rituais que não me acrescentavam em nada e ainda me sugavam o que tinha de energia vital). Morte espiritual. Me agarrei no que podia tentando reverter o quadro e fiz coisas sem entender direito o sentido pra me enquadrar e tentar me livrar do sentimento de culpa e de inadequação que me perseguia dia e noite. Não adiantava: eu não me adaptava, não enquadrava, tentava vender um peixe que eu sabia estar podre. RELIGIOSIDADE. RELIGIOSIDADE. RELIGIOSIDADE. Onde é que está Deus em tudo isso que eu faço????? Era a pergunta que fazia o meu corpo se contorcer na cama à noite.
(...)
Quando EU TENTEI FAZER TUDO CERTO - deu tudo errado! Daí eu passei a relaxar de verdade e questionar tudo e todos. Fazer perguntas que deixava a maioria das pessoas desconfortáveis (certamente não mais do que eu). Ganhei os mais diversos apelidos: louca, maluca, rebelde, crítica, kamikaze e por aí vai... E passei a deixar claro o meu desconforto. Sabe de uma coisa: as pessoas não se importam mesmo com nada! E por que raios eu deveria me importar??? PASSEI A FAZER TUDO ERRADO - novamente deu tudo errado!!! Agora a coisa ficou feia... Descobri a duras penas que não importava o que eu fizesse, os meus medos, as minhas culpas, as minhas vergonhas e os meus fracassos sempre recaíam sobre a minha cabeça quando eu observava a aparência feliz e próspera das pessoas à minha volta. A pergunta que eu me fazia era: AFINAL, O QUE HÁ DE TÃO ERRADO COMIGO??? Era a questão sem resposta.
Foi quando eu percebi que muitas pessoas tinham as mesmas preocupações, viviam os mesmos questionamentos, sentiam a mesma frieza espiritual mas que, simplesmente não externavam. Cada um no aconchego do claustro, amargava a desilusão de não ter um relacionamento com Deus, estar cansado e abarrotado de compromissos, "pesado" por causa da sensação de culpa que "não dar conta de corresponder" causava... Fácil é, fingir que nada está acontecendo, viver um dia depois do outro e ir protelando resoluções urgentes.
(...)
Para mim, não dava mais. Não dava pra viver uma farsa. Entrar na casa dos outros sabendo que a minha casa não estava em paz. Pregar uma prosperidade material que eu sei, você sabe, todos nós sabemos que o sistema econômico não permite a ascensão de todos. Riqueza não é para todos! É uma covardia desfilar de carrão na frente de uma pessoa que (hoje) não tem o que comer, alimentando quimeras de ter uma vida confortável em muito pouco tempo - Deus não manda ninguém fazer isso e isso não é para todos!!! É uma ilusão ensinar as pessoas a orar, afirmando (baseando-se nas Escrituras) que Deus vai atender! É um SOFISMA (mentira com cara de verdade). Deus não está condicionado às leis físicas mas as coisas físicas estão (incluindo eu e você)! Então não injete hoje em uma pessoa uma crença que vai levá-la a uma frustração amanhã, que é ainda maior do que o "não ter ou o não ser" de hoje. É muita covardia...
(...)
Tenho visto muita coisa nessa vida. E descoberto também... A minha vida espiritual anda assim: viva. Vou completar um ano de afastamento da rotina religiosa. Às vezes vou à Igreja mas isso não é uma obrigação (por mais que as pessoas teimem comigo pra eu ir - e eu sou teimosa o suficiente pra não ir). Sinto falta das pessoas; não das programações. Sinto falta do convívio; não da liturgia. Já tive mais fé e menos esperança. Hoje tenho mais esperança, menos fé e mais AÇÃO! Não porque tenha a necessidade de fazer alguma coisa, porque eu não posso comprar a aceitação de Deus com as coisas que eu faço. Aliás, o relacionamento com Deus (eu tenho descoberto) não tem tanto a ver com o que eu faço mas com QUEM EU SOU, QUEM ELE É e QUEM ELE QUER QUE EU SEJA. Tem a ver com ser e não com fazer. Já fiz muita besteira na vida e muita coisa boa também - nem uma coisa nem outra nunca me levou a um lugar seguro. Hoje eu já não me preocupo tanto com isso. Existem outras coisas...
(Continua).

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