quinta-feira, 1 de julho de 2010

Primeiro, dia primeiro

Dia difícil, pra variar. Vida de pernas pro ar e por falar em ar, está cada vez mais difícil respirar por aqui. Anteontem (eu acho) li uma postagem de um blog cativo daqui de Zion e muito querido e fiquei pensando... O tema da postagem era suicídio. Fiquei pensando em suicídio (mas não em ME suicidar, calma!). Pensando em dores na alma. Dores capazes de fazer a pessoa desistir de (ainda) estar por aqui. Pensei em um monte de coisas mas os meus pensamentos são assim, tipo aqueles velocistas olímpicos - quando me dou conta já se foram e eu não consigo sequer acompanhar (que dirá "capturar").
E lembrei de um amigo que completa mais um ano de vida hoje. Amizade tão antiga quanto a própria vida da gente, tão louca e desenfreada. Engraçado, que como de todas as datas importantes, eu sempre esqueço do dia no aniversário dele. Sempre. Quando me lembro já se passaram dias ou meses. Ah, a minha memória... Esse meu amigo tentou suicídio duas ou três vezes, não me lembro exatamente. Lembro que na última dessas, eu liguei pra ele do nada e ele estava se recuperando.
Nos conhecemos na sétima série, com doze ou treze anos de idade. Escrevi junto com ele o meu primeiro texto de teatro. Era uma esquete simples, montamos com a ajuda da professora (maravilhosa): texto, figurino, cenário, ensaios e foi tudo muito intenso e lindo. Escrevemos, preparamos, ensaiamos e encenamos juntos. Estudamos na mesma sala ainda mais um ou dois anos, depois ele reprovou e mudou de horário, de sala, depois de escola e... acabamos nos perdemos de vista. Ficou a lembrança daquele menino alto, imberbe, com um timbre de voz inconfundível, lindo e talentoso. Que frequentava as aulas usando aquela bermuda jeans até o joelho e lentes de contato azuis. Que fazia um monte de desenhos obscenos no quadro-negro, que era verde. Certa vez pulamos o alambrado do colégio (acho que pra matar aula) e eu (que não tenho a menor vocação pra malandragem) tropecei num graveto, tirei um talho da perna e a cicatriz existe até hoje...
(Muitos) anos depois, estava eu vasculhando sites de companhias de teatro, encontrei nome e telefone da criatura nos contatos de um grupo daqui de BSB. Coração chega pulou! Liguei e era ele mesmo. Muito bom reencontrá-lo depois de tanto tempo. Mas nem chegamos a nos ver na época. Apesar do convite que me fez (a participar de uma oficina de artes cênicas que começaria dali a alguns dias). Nessa época eu tava no terceiro ano da faculdade, fazendo estágio e mexendo (como de constume) com mais um milhão de coisas. Não deu. Mas conversamos bastante por telefone durante alguns dias. Depois nos perdemos novamente.
Mais uns dois ou três anos, fui trocar de aparelho de celular e encontrei o número do dele. Liguei. Trocamos MSN e passamos a conversar via internet. Se bem que eu nunca fui muito fã de bate-papo eletrônico... Um dia entrei e ele estava on-line. Puxei conversa (por sinal, tinha passado já o dia primeiro de julho do ano e eu havia esquecido). Foi aí que ele me pôs a par dos acontecimentos, da depressão, das tentativas de suicídio, enfim...
Mantivemos contato e como eu estudava perto de onde ele morava, um dia fui vê-lo. Conversamos horas. De lá pra cá acompanhei meio que de longe a trajetória. Mas sei que ele começou e trancou a faculdade de Psicologia "trocentas" vezes, depois trancou definitivamente e foi estudar Artes Cênicas. Quando enfim, se formou, descobriu que a "praia" dele era totalmente outra e foi trabalhar em um ramo inusitado (que eu não vou contar, fique com curiosidade) onde continua até hoje.
Mas surpresa mesmo fiquei quando comecei a estudar Inglês pra botar adiante uns projetos pro início do ano que vem: enquanto passava a lição na biblioteca, escutei a voz mais do que familiar vindo da recepção... Só podia ser - e era. Corri até lá feliz da vida e me pendurei no pescoço, matando a saudade. Mudou nadinha! De quase vinte anos pra cá, só os fios de barba foram acrescentados ao rosto, o restante pra mim, continua igualzinho... Nos falamos há uns quinze dias. Marcamos de nos encontrar e meia-hora antes torci o tornozelo (que nem bem tinha cicatrizado da primeira torção). Liguei desmarcando, morrendo de pena. Ficou pra outro dia.
O bom mesmo é que esse ano eu lembrei! Mandei recado ontem, pra garantir caso esquecesse mais uma vez. Mas hoje lembrei e mandei outro. Que bom que eu lembrei! Que bom que ele existe... É um cara que tem o dom de ANIMAR os outros, de soprar vida nos sonhos alheios. Do tipo de pessoa rara capaz de se alegrar com o sucesso dos outros. Dia desses fui pedir uma "consultoria" pois quero montar uma oficina de teatro com adolescentes e ele espantou pra bem longe os meus medos dizendo: "Vai e arrasa!" Ele tem o melhor abraço-amigo que eu conheço e um coração pra lá de grande... Que bom que as tentativas de suicídio falharam e eu posso contar com ele vivinho da silva hoje, estando longe ou perto.
Parabéns!
Amo.

2 comentários:

osvjor disse...

ótima história. interessante é vc dizer que seu amigo, apesar dos problemas que teve, é alguém capaz de instilar vida nos sonhos alheios. nossa idéia de leigo é oposta: ah, suicida, o cara deve viver arrastando correntes, botando os outros pra baixo etc.

ramo inusitado? por que temos que ficar na curiosidade? meus palpites:

a) ele é ator pornô.
b) gerencia um bordel.
c) cria camundongos pra servir de alimento pras cobras do zoológico.
d)produz próteses penianas.
e) NRA

Viviane Zion disse...

hahahahahaha...

curiosidade matou o gato!
boa tentativa mas a profissão dele não é nada tão incomum... só não tem nada a ver com as duas carreiras que ele intencionava seguir antes. não vou contar o que é, nem adianta.

forte abraço!

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
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