sábado, 22 de janeiro de 2011

Do "Livro do desassossego"

"Amiga, comprei um livro!" - eu disse. "Qual?" - foi a vez dela. "O livro do desassossego!" - respondi meio empolgada meio ofegante, tinha acabado de sair da livraria e precisava dividir a novidade com alguém... "Ai meu Deus! Fernando Pessoa de novo..." Não compreendi muito bem o espanto. Era um livrinho normal que eu vinha namorando há um bom tempo e como todo namoro que se preza, ou acaba ou acaba em casamento... Levei pra casa sem medo do divórcio. Eu e o Fernando (Pessoa) nos entendemos muito bem. No Livro do desassossego mais ainda, pois aquele amontoado de anotações sem muita lógica, coerência são dessas coisas que costumam brotar da minha pena quando noa auges da inspiração...
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Tava aqui folheando hoje... Compartilho o que li e ri. Parece que fui eu quem escreveu.
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126.
Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda gente, esteja dias dobre dias
para responder num portal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como
ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável.
Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma.
 Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta
suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma - a palavra, o gesto,
o hábito - me exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer.
Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem
amasse fer-me-ia a impressão de tre sido realizada numa língua estrangeira. Não
posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos 
certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto ritmico de um
organismo qualquer. Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer
quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim.
Às vezes, ocorre-me que, quando dispo esta paregem de mim,
talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis
a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir,
querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir
mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deiso que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o 
que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.


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