terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sobre as baratas...

Terminei de ler Cem anos de solidão recentemente...


(... ) "Essa era a sua vida dois anos antes que Gastón começasse a esperar o aeroplano 
e continuava sendo igual na tarde em que foi à livraria do sábio catalão e se encontrou com 
quatro rapazes desbocados, encarniçados numa discussão sobre os métodos de matar
baratas na Idade Média. 
O velho livreiro, conhecendo a estima de Aureliano por livros que só Beda, o
Venerável, tinha lido, insistiu com uma certa malignidade paternal para que ele fosse o
árbitro da controvérsia e este nem sequer tomou fôlego para explicar que as baratas, o
inseto voador mais antigo sobre a terra, já era a vítima favorita das chineladas do
Antigo Testamento, mas que como espécie era definitivamente refratária a qualquer
método de extermínio, desde as rodelas de tomate com bórax até a farinha com açúcar,
pois as suas mil seiscentas e três variedades tinham resistido à mais remota, tenaz e
desapiedada perseguição que o homem jamais empreendera, desde as suas origens,
contra qualquer ser vivente, inclusive o próprio homem, ao extremo de que assim
como se atribuía ao gênero humano um instinto de reprodução, devia-se atribuir a ele
também outro, mais definido e premente, que era o instinto de matar baratas, e que se
estas tinham conseguido escapar à ferocidade humana era porque tinham se refugiado
nas trevas, onde se fizeram invulneráveis pelo medo congênito do homem à escuridão,
mas em compensação tornaram-se susceptíveis ao brilho do meio-dia, de modo que na
Idade Média, na atualidade e pelos séculos dos séculos, o único método eficaz para
matar baratas era o deslumbramento solar" (...)

Gabriel García Márquez

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