sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quem tiver ouvidos de ouvir e olhos de ver...


Em uma dimensão alternativa, havia um pequeno planeta próximo à constelação que chamamos de Cruzeiro do Sul. Esse pequeno planeta era habitado por seres pequenos, chamados de anthrons. Esses seres viviam de modo simples, voando nas correntes de ar e coletando, da atmosfera, o alimento necessário para o dia a dia.
No passado remoto, os anthrons sofreram grande catástrofe. Daimlukh, um ser invasor desse pequeno planeta, procurou destruir tudo o que o Criador do Sol tinha deixado ali para os anthrons. Daimlukh enganou os anthrons primordiais, fazendo-os seus escravos e grampeando suas asas, para que não mais voassem. Porém, o Criador do Sol logo descobriu os planos de Daimlukh e o enxotou daquela dimensão, libertando os anthrons, não sem, porém, o grande sacrifício de seu filho, morto na Grande Batalha. Até hoje os anthrons não entendem, mas a morte do filho do Criador do Sol não foi definitiva, tendo ele retornado para libertar as asas dos anthrons.
Nem todos os anthrons podiam voar, é verdade. Somente aqueles que aceitavam, de bom grado, a oferta do filho do Criador do Sol é que tinham suas asas novamente soltas. Aqueles que podiam voar mostravam aos anthrons pedestres como isso era bom. Alguns queriam voar novamente e aceitavam ser soltos; outros se acostumaram com aquela vida rasteira.
Porém, alguns anthrons voadores achavam que, daquele jeito, a coisa não daria certo. Resolveram criar uma série de regras para o bom vôo de seus companheiros. No início, aquelas regras eram boas, ajudavam bastante no fluxo do vôo ainda desajeitado dos anthrons, desacostumados com aquela gostosa liberdade.
Mas os anthrons que criaram as regras não se deram por satisfeitos. Criavam ainda mais regras, e algumas eram adendos às regras antigas. Os anthrons, claro, não reclamavam, mas não notaram que não tinham mais tanta liberdade de voar assim.
Por fim os deibos, nome dado aos anthrons responsáveis pelas regras, decidiram o seguinte: em nome do filho do Criador do Sol, todos os anthrons deveriam deixar de voar sozinhos. Só poderiam voar algumas horas do dia, e mesmo assim acompanhados pelos deibos. Caso não houvesse algum deibo disponível, o anthron deveria aguardar pacientemente pela sua vez em suas celas, que eram pequenas caixas reluzentes e gradeadas por dentro e por fora, decoradas com frases ditas pelo filho do Criador do Sol.
Alguns anthrons começaram a fazer uma silenciosa revolta. Não quebravam as celas, mas se recusavam, pacificamente, a voltar a elas. Preferiam ficar nas correntes de ar do planeta, não aceitando mais a impostura dos deibos. Outros anthrons quebravam tudo, se recusavam a voar nas correntes de ar e ficavam perdidos pelo caminho, se tornando presas fáceis para os predadores transdimensionais.
De vez em quando, ouvia-se um lamento, no meio das celas, de algum anthron. Lembrava-se de como era bom voar livremente nas correntes de ar, acompanhado pelo filho do Criador do Sol. Com seu lamento, de modo inexplicável, a porta de sua cela se destrancava automaticamente, e ele podia voar para longe dali.
Mas o que os deibos não se atinaram é que estava próximo o dia em que o filho do Criador do Sol voltaria àquela dimensão. Naquele dia, todas as celas seriam varridas do mapa, todos os anthrons voariam livres, e todos os deibos se uniriam a Daimlukh em sua dimensão perdida. A liberdade para os anthrons era apenas questão de tempo. E de lamento.

0 comentários:

Sejam bem-vindos!

Mi casa, su casa...
 
Copyright 2009 Viviane Zion. Powered by Blogger
Blogger Templates created by Deluxe Templates
Wordpress by Wpthemescreator
Download Royalty free images without registering at Pixmac.com