sábado, 7 de abril de 2012

O poder tem sexo

(Por Eduardo Pavlowsky)

Existe o homem. Existe a mulher. O masculino e o feminino. O machismo e o feminismo. Suas lutas de poder. Existe um poder basicamente masculino. O homem classifica, segmentariza, ordena, centraliza, cria, permanentemente, máquinas binárias (acima, abaixo, central, periférico, etc). Deleuze e Guattari diriam que toda esta organização molar é uma forma de pensar o mundo. Uma forma de produção da subjetividade. Macropolítica pura. Linhas duras. Estamos atravessados por binarismos e linhas duras cotidianamente.

A mulher também pode acoplar-se a este tipo de organização, aprisionada por este mecanismo, opondo-se, então, ao homem em seu próprio sistema de poder; onde não há outro espaço de luta que não seja o de tentar ocupar o lugar do homem, invertendo os papéis, mas sem modificar o mecanismo do sistema de poder masculino. Mas existe também uma micropolítica, um mundo molecular, que escapa permanentemente destas linhas duras de poder, que não se deixa capturar por nenhum sistema classificatório. Mundo de vir-a-ser, de fluxos incapturáveis. Mundo de contágio, de criação permanente. Processo de criação de novos fenômenos sociais que não se deixam capturar pelas interpretações habituais, políticas ou ideológicas. Assim foi maio de 68, nosso 45; moleculares por excelência. Imprevisíveis por sua magnitude.

Sartre dizia que maio de 68 foi feminino por sua impredizibilidade. Todo esse processo molecular, inerente à criação desde as estruturas dissipativas de Prigogine até a pintura de Bacon, é definido por Deleuze como "vir-a-ser-mulher". É outra maneira de observar a grande potência do feminino. Seu grande mistério. Sua grande beleza. Não existe o "vir-a-ser-homem". O homem pode "vir-a-ser-mulher" no amor, na ciência, na criação. Como homens, estamos por demais aprisionados nos sistemas molares de poder. Não é fácil, para nós, "vir-a-ser-mulher".

Os novos processos moleculares do "vir-a-ser-mulher" têm a ver com novos processos sociais que desconhecemos. Nem todas as mulheres, dizem Deleuze e Guattari, podem "vir-a-ser-mulheres". Muitas ficam aprisionadas no mecanismo de poder masculino, nas lutas dentro do mesmo sistema. É questão de eleger. Magnífico mistério do feminino.

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