sábado, 18 de maio de 2013

Quando abandonei o ninho

Amanheci com um pensamento fixo que não era bem um pensamento mas uma constatação. Era um filme em preto e branco exibido pela minha mente durante as tarefas costumeiras da sexta-feira pela manhã. Às segundas e às sextas não trabalho; ou melhor, trabalho, mentalmente, em casa ou outro ambiente que o valha. Bem nestes dias em que a concentração não está em produzir coisas para fazer jus ao ordenado minguado que o governo me cede ao final do mês, minha mente inicia a exibição de reprises das cenas da minha vida. Pois bem, hoje pela manhã, em cartaz os quatro ou cinco últimos anos vividos e uma decisão que fez toda a diferença: sair do círculo religioso. Sei que volta e meia essa pauta retorna aqui no blog mas é assim mesmo que acontece, o assunto sempre volta a ser moído e remoído aqui dentro em um lugar entre o coração e a razão.

Muita coisa aconteceu de cinco anos para cá, muita coisa "fiz acontecer" e mais outras tantas (coisas) não aconteceram, por mais que eu tentasse ou me debatesse com todas as forças neste sentido e intenção. E tudo isso está intimamente ligado à minha maneira de exercer a espiritualidade, de ser-sentir-fazer e refazer-me como ser ligado a uma consciência maior (esta que chamo Deus). Em 2009, em meio a uma crise pessoal terrível (iniciada bem antes), abandonei a rotina religiosa que vinha cultivando fervorosamente há dez anos: rompi com os rituais, com as ordenanças, com os dogmas e tabus. Saí sem dizer adeus nem olhar para trás.

Traidora, desertora, ovelha desgarrada, desviada, desviante, má influência, má companhia... Se não era o mundo exterior, era o interior a me proferir acusações. E foram-se as referências, foram-se as amizades. A tristeza que me consumia por dentro havia instalado-se muito antes desse embaralhamento mental que me fez desistir de tudo, jogar pro alto uma carreira (?) promissora (?)...

Não, espera! De que estamos falando afinal?!

Voltando um pouco no tempo, refiz o caminho das últimas aparições nas programações ritualísticas da igreja onde eu congregava. Naquela época não havia a menor possibilidade de compreender mesmo o que estava acontecendo mas hoje sento-me sobre o muro e observo cada cena. Sim, foi a maior e melhor decisão a ser tomada naquela época! Veja bem, a minha vida andava estagnada apesar de muito movimentada- paradoxalmente eu vivia numa contínua exposição às programações prescritas pela igreja, às multitarefas a desempenhar, às múltiplas reuniões a comparecer, aos relatórios a apresentar...Foi o que explicitei hoje ao escrever primeiro parágrafo: imersa nos compromissos e protocolos jamais temos tempo de sequer pensar sobre a nossa própria vida - imagine então, refletir sobre as nossas escolhas... Rompi com os protocolos. Cortei o cordão umbilical num único golpe, fatal.

Veja bem (abro aqui um parêntese necessário), não me vanglorio pelo que fiz. Corri riscos, sofri perdas, passei por dores e solidão sem tamanho. Não sou uma heroína! Fiz escolhas, assumi a consequência de todas elas e paguei caro por algumas. Sem mais. Não sirvo de exemplo a ninguém nem tenho a pretensão de servir, pois defendo que cada um deve trilhar o seu próprio caminho segundo as suas convicções e maneiras de entender as coisas. Sim, porque os pontos de vista divergem bastante, mesmo - e principalmente - no meio religioso. Passemos adiante.

O primeiro choque foi ter os finais de semana livres. Eu, que sempre levei a sério a coisa de "servir ao Reino de Deus", servia da melhor maneira que podia, com o tempo e demais recursos que tinha. Fui zelosa observadora da Lei e por muito tempo não enxerguei que era exatamente esse o problema. Agora, o problema eram os sábados e domingos lives de qualquer compromisso. Às vezes dormia os dois dias seguidos, outras tantas vezes saía caminhando ou pedalando sem rumo e sem hora para voltar. Foi bem nessa época que percebi que já não tinha mais nenhuma paciência para acompanhar a programação da TV (isso foi um ganho enorme, que acompanha os meus hábitos até hoje).

O segundo choque foi perceber que não tinha mais amigos: já que o meu círculo de amizade esteve todo esse tempo restrito aos membros congregacionais. Quão alienada eu estava da vida aqui fora! E que solidão sem tamanho eu sentia, já que na Igreja, vivia rodeada de gente (não estou falando necessariamente de qualidade mas de quantidade). Da multidão à solidão num piscar de olhos; não poderia nem queria permanecer com as mesmas amizades. À questão das amizades, retornarei em outra ocasião.

Terceiro choque, que se seguiram de outros tantos que não caberiam em muitas e muitas páginas de blogs infinitos: minha vida acadêmica e profissional havia se estagnado! Era o fim! Apesar de ter acompanhado de perto tanta mensagem de prosperidade, de auto-ajuda, auto-estima, auto-afirmação... ao sair, o que mais me atormentava era uma sensação de fracasso terrível! Havia falhado na minha missão como ser humano! Tanta coisa que eu desejava ardentemente fazer (no âmbito profissional), tantos cursos, tantos livros para ler, tantas investigações... Tudo isso congelado na geleira da indústria religiosa, que é uma modalidade muito sutil de escravidão.

Pois bem, o susto (ou o surto) inicial durou uns bons e longos meses. Completamente desnorteada, fui tentando daqui e dali me encaixar em outros grupos, outras tribos, mas sem perder a referência maior: o profundo amor e convicção que eu sempre tive com/por Deus. As lutas internas e extrenas foram de enlouquecer! Passei a visitar parentes, sair com pessoas com as quais não sairia antes (enquanto militante religiosa), retomei contato com antigas amizades. Daí aos poucos, um tantinho mais fortalecida, estabeleci metas pelas quais lutaria ferrenhamente, pois eram justamente o que queria alcançar àquela época: fui estudar Inglês, iniciei um programa de treinamento físico, fiz terapia, comecei a remodelar a minha maneira de ser - aproveitando o que era possível do passado mas abrindo mão do que já não mais servia para incorporar o que era novo e melhor.

Fechei a minha mente para os assuntos sentimentais; não estava em condições de me envolver com quem quer que fosse enquanto não passasse a limpo todas as histórias passadas, juntamente com as dores e cicatrizes que deixaram. Ocupei novamente o meu tempo e a minha mente: fui fazer pós-graduação - uma, duas... mais o Inglês, mais a prática física, mais as quarenta horas de trabalho semanal, mais a pilha de livros que li (especialmente nestes dois últimos anos). Uma longa, árdua mas frutífera caminhada!

Frutífera sim! Hoje, passado algum tempo, tenho vivido dias de muita paz e alegria, de companhias leais e conquistas impensáveis, caso eu tivesse continuado a trilhar aquele caminho. Poderia acrescentar inúmeras narrativas aqui mas o que quase me derreteu os miolos hoje pela manhã foi pensar outras possibilidades de acontecimentos, caso não tivesse tomado a decisão drástica de abandonar o ninho, de acreditar na vida pulsante dentro de mim avisando que havia mais, que o horizonte era (e é) bem maior do que aquela realidade micro que eu estava acostumada a ver...Talvez hoje, a cinco dias de abandonar o ninho outra vez (dessa vez outro ninho e outras circunstâncias), eu tenha começado a repensar o valor e o peso das minhas/nossas escolhas.

Abandonei o ninho há cinco anos atrás mas levei junto as minhas convicções, os rudimentos da minha fé - essa é a parte impactante. O "reino", que antes para mim era um conjunto de coisas palpáveis, passou a ser mais claro quando descobri que é constiuído justamente das coisas invisíveis. Sim, sou adepta das coisas que contrariam a lógica e não têm explicação: eu creio num Deus que por amor se fez humano e se submeteu à morte para garantir que eu tenha esperança de viver uma realidade superior a essa que tenho a oportunidade de viver hoje.

E conto (não nos dedos) com o coração cheio de alegria e gratidão quantos aprendizados, quantas conquistas, quanto crescimento (espiritual, material, emocional...) acumulei desde o dia em que decidi ser honesta comigo mesmo, admitir que a vida não estava boa da maneira que ia, tomar as rédeas da minha vida nas minhas próprias mãos, acreditar que Deus não precisa (necessariamente) de mensageiros para falar comigo e assumir os riscos e as consequências da decisão que mudou completamente o rumo da minha história: abandonar o ninho.


2 comentários:

Sr. Sete disse...

Ainda que traumatizante o independencear-te foi a melhor opção. Isso me incomoda porque quanto mais preso eu fico, mais sóbrio eu fico. E acredita, eu preciso de minha sobriedade. Mas pra ti não. Isso foi o contrário já diziam tuas palavras.

Acredito no mesmo amor, mas dele duvido com todas as forças que posso ter. E as palavras que se tornam perigosamente cruéis e difíceis são casas de hospitalidade que nos recebem e encantam.

Deivyd Cavalcante disse...

Muito bom o seu blog. Conheci por acaso. Mas fico feliz em ver tantos textos legais. Deus continue te abençoando e nos abençoando com os seus pensamentos.

Sejam bem-vindos!

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